Cosme e Damião

Cosme e Damião teriam sido dois gêmeos árabes nascidos de uma nobre família cristã por volta de 260 d.C. Tendo estudado medicina na Síria, foram atuar na Egeia, (atual Ayas, no Golfo de Iskenderun) onde tratavam dos enfermos sem lhes cobrar um tostão, embora não fosse essa a moeda corrente na época. Tal atitude os rendeu a alcunha de anárgiros (Ανάργυροι ou anargyroi em nossos caracteres), sendo an- o prefixo de negação e argiros equivalente a argentum, prata, que funciona como sinônimo para dinheiro.

Como suas curas eram inacreditáveis, começaram a ganhar fama de milagreiros. O imperador Diocleciano (clique aqui) decretou sua prisão, sob acusação de praticarem bruxaria. Condenados à morte em 303 d.C., foram colocados contra um paredão, crivados de flechas e apedrejados por quatro soldados sendo, em seguida, decapitados.

Tendo se tornado mártires, entre 526 e 530 d.C., o Papa Félix IV ergueu uma basílica em Roma em nome dos gêmeos e o imperador Justiniano repetiu o feito, por volta de 530 d.C., quando ergueu uma igreja-mausoléu em Constantinopla, assim como feito para o suposto Jorge de Capadócia.

Acta e Passio

O curioso é que a Igreja Católica critica o fenômeno do sincretismo, tendo sido ela própria a responsável por ele (dada a erudição de seus jesuítas que perceberam as óbvias correlações entre os arquétipos) e fruto do mesmo, já que seus santos e mártires (quando não inventados pela hagiografia criada a partir do século XVII) substituem deuses pagãos, e, seus respectivos feriados, as festividades dos mesmos. Originalmente, seus nomes eram Acta e Passio e não se sabe como vieram a se tornar Cosme e Damião. Ao menos, este que escreve não conseguiu encontrar o elo perdido entre as nomenclaturas.

Agora, sejamos menos crédulos e mais analíticos. Acta significa “feitos” ou “façanhas” e Passio, “sofrimento” e “capacidade de aguentar”. O termo deu origem às palavras “paixão” e “passional” e não é à toa que o martírio de Jesus é chamado “Paixão de Cristo”. Ambos os nomes sugerem que os gêmeos atuavam e sofreram martírio, como reza a lenda. Além disso, sua relação sugere uma homeostase, uma espécie de yin-yang onde um gêmeo é ativo e o outro, passivo.

Ao se tornarem Cosme e Damião, tais nomes não foram escolhidos ao acaso, tampouco sua data de comemoração. Cosme vem do grego Kósmos, “ornamento” ou “enfeitado”, daí o termo “cosmos”, pois o céu noturno é enfeitado de estrelas, e Damião vem do grego Damianós, “domador” ou “aquele que acalma, apazigua” (já que era capaz de aplacar as dores dos enfermos), e também “popular”, de Demos, “povo”. Para a Igreja Católica, seu dia é comemorado em 26 de setembro e o dia seguinte, 27, é sagrado para os cultos afro-brasileiros. Nesse período o Sol (com inicial em maiúsculo por se tratar, não da estrela de 5ª grandeza, mas do planeta na astrologia) está em Libra, o signo mais enfeitado e mais popular.

Os Ibejis

No Brasil, Cosme e Damião foram associados aos Ibejis, filhos de Xangô e Iansã (“sincretizados” como Santa Bárbara e São Jerônimo) duas entidades gêmeas do Candomblé que realizavam desejos e resolviam problemas em troca de doces, mas poderiam reverter o pedido e “bagunçar o coreto” caso lhes fossem negadas as guloseimas; algo muito próximo ao Halloween norte-americano.

Assim, Erê e Curumim aparecem com mais uma figura entre eles: Doúm. Essa tríade recebe como oferenda o Caruru de Santo, servido a sete crianças de no máximo sete anos, para que comam com as mãos.

De acordo com o mito, um dos gêmeos morreu quando brincava na cachoeira. O irmão sobrevivente pediu para se encontrar com o outro no céu, e Orunmilá deixou a imagem de barro que representava a união eterna entre ambos. Tal mito é bastante semelhante ao mito grego de Castor e Pólux, dois gêmeos resultantes do quase ménage a trois de Leda (rainha de Esparta), Tíndaro (rei de Esparta) e Zeus.

Castor e Pólux

Acontece que Leda fora fecundada por seu marido, mas pulara a cerca para praticar zoolagnia com Zeus, transformado em cisne. Após dar à luz um ovo, deste nasceram os gêmeos, sendo Castor, filho do rei, (domador de cavalos, o significado de Damianós) e Pólux, filho de Zeus (um guerreiro, filho do deus dos céus, o cosmo). Em uma batalha contra dois outros irmãos, Castor é morto por um destes e seu irmão, imortal, pede a seu pai, Zeus, que ressuscite seu irmão. Como não podia contrariar a vontade de Hades, seu irmão e soberano do mundo dos mortos, foi forjada uma barganha, onde ambos poderiam dividir sua imortalidade, desde que cada um passasse metade do ano no Reino Inferior. Tal feito deu origem à constelação de Gêmeos e ao arquétipo do signo.

O Samhain: o encontro entre os homens e os changelings

Assim como os Ibejis realizavam milagres ou distribuíam sortilégios à medida que recebiam ou não suas oferendas em doces, o Halloween surgira no mundo anglófono sob outro epíteto: a celebração celta irlandesa conhecida como Samhain, entre o período de 800 a.C. e 600 a.C., que significa “fim do verão” e durava três dias, a começar do dia 31 de outubro, para celebrar a abundância após o período de colheitas.

Durante tal período, a película que separa o nosso mundo do mundo espiritual era rompida ou, ao menos, tornava-se mais fraca, diáfana, deixando que os habitantes do mundo espiritual abandonassem temporariamente o Sídhe, o aglomerado de colinas onde habitavam as fadas e elfos; uma espécie de Arcádia.

Em 13 de maio de 609, o Papa Bonifácio IV converteu o tradicional templo conhecido como Panteão em uma igreja, dedicada à Virgem Maria e a Todos os Santos. Em 835 d.C., O papa Gregório IV transferiu a celebração para o dia 1º de novembro, tendo sido decretada em 1475 por Xisto IV, hoje, Dia de Todos os Santos, do original, Festum Omnium Sanctorum.

Halloween

Em 1745, surge o primeiro relato do termo Halloween, sendo derivado da expressão All Hallow’s Eve, sendo Hallow, “santo” e Eve, “véspera”, ou seja, a Véspera de Todos os Santos. Sendo originalmente uma festividade irlandesa, foi levada aos Estados Unidos após a Grande Fome, que assolou a Irlanda em 1845, forçando uma forte migração de um país para o outro.

Desnecessário dizer que a Grande Fome trouxe consigo mais um dos Quatro cavaleiros, a Morte. E, tanto o Dia de Todos os Santos (todos mártires) quanto o Dia de Finados (2 de novembro) ocorrem quando o Sol está em Escorpião. Sendo o signo correspondente à décima terceira carta do Tarô, a Morte, não é por acaso que ambas as comemorações – se é que se pode chamar assim – ocorrem em tal data. Sendo o décimo primeiro mês do ano, somando-se ao algarismo do dia, temos 13, o número da carta. O dia original de Todos os Santos instituído por Bonifácio IV também era 13. Coincidência?

Ou seja, o mito de Cosme e Damião é, assim como o de São Jorge e tantos outros, mais um plágio descarado da Igreja Católica Romana. O Dia de Finados nada mais é do que uma adequação às efemérides astrológicas como um marco da supressão dos deuses pagãos.